Emancipação: capítulo 1
Um romance e a pergunta: a redenção é sempre possível?
Pensar um romance era algo distante até anos atrás para mim. Pensar em uma história que atravessasse décadas, carregando as memórias e as cicatrizes, era ainda mais improvável. Imaginar a transformação da vida de três personagens marcadas por tantos acontecimentos era talvez o maior desafio. Dessas incertezas nasceu Emancipação, que em breve será lançado pela Editora Urutau.
Há sempre um começo, e ele está aqui. Enquanto você aguarda o lançamento de Emancipação, eu deixo o primeiro capítulo para você. Leia, comente. Eu quero saber o que você acha.
A pré-venda encerrou, mas em breve acontecerá o lançamento e começarão as vendas pela internet e pelas livrarias físicas. Outras informações sobre o romance você encontra no meu perfil, lá no Instagram.
VERÃO, 1964
O sol de dezembro vinha castigando mais nos últimos tempos. Aquele ano se anunciava bem diferente, muito pior do que se via anos antes. A terra seca já havia escamado há meses. A angústia do sertanejo se misturava de forma melancólica à alegria pueril das crianças. Carlos esperava a seca arder a terra depois dos aguaceiros minguados para pisar os gomos ressecados. Adorava sentir a terra se esfarelar entre os dedos descalços, correndo sobre o chão castigado. Sentia prazer até mesmo quando machucava as solas dos pés tentando partir os torrões mais duros, ou quando o chão escaldante acabava por lhe queimar levemente a pele. Nos dias de poucos afazeres, andava por horas seguidas. Gostava da sensação do calor sob o corpo enquanto a terra dançava de tão quente sob os olhos semicerrados. A recompensa vinha com o salto corajoso no açude ressecado de um dos vizinhos, o último que ainda resistia à brutalidade do sol. Ao lado de onde tantos animais desenhavam seu último compasso de vida, à míngua de pasto e à sorte da água barrenta que lhes era reservada, Carlos se secava nu, ao sabor do calor impiedoso e do assovio do vento quente de tempos em tempos cortado por um ar fresco, que de tão repentino arrepiava gostosamente todo o seu corpo. Aquele cenário de consumição e prazer acompanharia Carlos até o fim dos seus dias.
Naqueles dias áridos, Antônio se perdia pelas sobras da vegetação rala que cobria algumas poucas terras por ali. Adorava andar sem direção, mirando o rumo por entre a mata seca. O corpo reluzia riscado de vermelho à conta das folhas dos canaviais que resistiam ao tempo seco e lambiam os braços e as pernas. O menino cortava as pequenas fazendas entre mirrados rebanhos até descobrir uma nova invernada, derivando pela estrada geral com o gosto de pó na boca vindo das nuvens deixadas no surrado caminho que a cana -de -açúcar percorria. Do alto dos morros, contemplava os facões que reluziam lá embaixo nas mãos dos boias-frias tombando largas faixas do largo verde-acinzentado de cana, tudo emoldurado pela cortina branca e densa despejada pelos engenhos. Ali se distraía às vezes por horas, misturando o gosto da fumaça com o cheiro adocicado do melaço que grudava no corpo e na roupa. Chegava em casa apenas no fim do dia, tingido na cor do chão a pó e suor. Eunice lamentava copiosamente a independência de Antônio, tão diferente de Carlos, sempre agarrado à sua saia. Naquele lugar em que nenhuma mulher se queixava impunemente, Eunice respondia com silêncio a insatisfação, numa mistura de raiva e desencanto pelo filho que vazava pelos seus olhos.
Distantes ou próximos dos olhares daquela leoa, Antônio e Carlos eram inseparáveis. As diferenças entre eles acabavam por convergir em um sentimento comum, que aumentava à medida que os anos passavam e o mundo ficava maior. Arredios aos modos de ser daquelas gentes, chegaram à adolescência sonhando com os ares da capital ou ao menos de algum lugar em que não dependessem tanto da sorte e do tempo nem das luzes de vela.
Tudo viria a seu tempo, e, muito antes que o destino desse rumo ao planejado, no fim daquele verão infernal, Januário, um dos irmãos de Antônio, do dia para noite, abandonou o curso de engenharia, sem nenhuma explicação. Januário, o único letrado entre eles, era o orgulho da família. Nele se cumpria a tradição comum daquele lugar esquecido, onde um dos filhos era escolhido e a ele se devotava todos os esforços e a esperança que havia abandonado aqueles à sua volta. Aguardava-se por recompensa, com o passar dos anos, um doutor ou a dádiva de oferecer um filho à Igreja.
O destino conspirou caprichosamente. Januário saiu de casa logo que o pai morreu repentinamente e ao desaviso em uma mesa de bar. Ganhou o mundo com a desculpa de arrumar algum dinheiro para ajudar o sustento da casa. Concluiu os estudos secundários à custa de muitos favores e passou em um dos vestibulares mais disputados. Escrevia da Capital capital de tempos em tempos, conforme permitia a agitada militância estudantil e o suficiente para que a saudade não morresse de fome. No interior, por vezes as cartas se acumulavam à espera de alguma boa alma que as pudesse ler. Com as cartas, sempre chegava o anúncio velado de felicidade, e a euforia tomava conta de todos na casa. Era a única ocasião em que a família se permitia reunir sem hora e sem a pressa dos afazeres diários. Às vezes isso dependia de dividir a pobre refeição com o caixeiro, ou de encurtar a noite de sono após a novena. Nas cartas, o relato de um cotidiano simples, mas reluzente para quem vivia cercado pelo horizonte de cobre e ferrugem, junto de algum dinheiro que sempre ajudava nas despesas tão urgentes.
De repente as cartas cessaram. Alcides, o irmão mais velho, era quem cuidava da casa e da família havia anos, desde que a mãe morrera de tifo, e decidiu ir até à capital atrás do irmão. Seguiria seu rastro pelo endereço da pensão, escrito em uma caligrafia impecável nos envelopes que guardava junto com os poucos documentos da família. Juntaram algum dinheiro a duras penas durante dois meses. A preocupação de Alcides era tamanha que ele passou por cima do orgulho e cedeu à necessidade quando Eusébia, dona do único armazém do vilarejo, ofereceu uma pequena quantia em “empréstimo” para que ele pudesse viajar.
Alcides era tão rude quanto o pai. Dado à lida bruta do campo e sem instrução, desembarcou na capital e chegou até a pensão próxima da universidade guiado pelas boas almas que cruzaram o seu caminho. Na capital tudo impressionava, da cor cinza que tingia do chão ao céu o horizonte até o barulho que não cessava dia e noite naquela cidade que nunca dormia. Havia um certo fascínio, embora muito menor do que o estranhamento e a sensação de que era um estrangeiro, ainda que ninguém o notasse ali. Intrigava muito pensar que poderia se perder no meio da multidão e ninguém daria por sua falta. Nesses momentos sentia uma saudade gostosa da vida opaca e difícil que levava no interior, tanto mais saborosa em sua acidez.
Embora não soubesse, a capital estava diferente havia algum tempo. Chamava a atenção de Alcides os caminhões e carros militares que se apinhavam pelas ruas, que, de tempos em tempos, cruzavam as avenidas freneticamente, além do som das sirenes que rasgavam a cidade ou ecoavam por todos os cantos o dia inteiro. Tinha ouvido no rádio que o presidente havia covardemente fugido e que uma comissão estava governando o país, sem saber ao certo o que isso queria dizer. Não tinha nem mesmo ideia se era algo bom ou ruim. De onde Alcides vinha, duas forças celestiais, o sol e padre Eduardo, ditavam as leis, e isso nunca mudara.
Na pensão, os amigos do irmão explicaram que Januário havia sido preso com outros conhecidos pelos militares ainda em abril. Alcides não entendia o que sucedera com o irmão mais novo, como de resto não entendia quase nada das coisas relacionadas à política. Mas estava decidido a reparar o que quer que fosse que o irmão tivesse feito. Tinha consigo a certeza de que tudo não passava de um mal-entendido, nada que uma boa conversa não resolvesse. Com Januário se resolveria depois. Era novo e sonhador, e tinha muito a aprender, pensava.
Por muitos dias, Alcides procurou o irmão. Bateu de porta em porta em todos os lugares em que, diziam, ele poderia estar. Foram dias a fio, jogado de um lado para o outro, cruzando a cidade a pé para poupar as poucas economias. Já sem dinheiro, ele chegou à brigada onde, segundo lhe garantira um sargento bem relacionado com o alto comando, o irmão devia estar. Depois de muito insistir pelas grades do portão, o sentinela voltou e deu informações de forma protocolar. Disse que o irmão de fato estava lá, na enfermaria. Tivera um mal-estar súbito ou algo assim, mas passava bem. Talvez tivesse alta pela manhã, mas não sabia ao certo se ele poderia receber visitas, respondia a Alcides, que atônito prendia a mão às grades para segurar o corpo em pé. Não havia jeito a não ser esperar, sentenciou.
Alcides sentiu um estranho alívio. Apesar de não ter visto o irmão, estava perto dele. Iria convencê-lo a voltar logo que o visse. Sim, a capital não era um lugar para alguém como eles. Tudo era muito complexo e desconhecido e ali, diferente do pequeno vilarejo, ninguém olhava por ninguém, concluiu.
Enquanto a ansiedade tomava conta dos seus pensamentos, Alcides contou os poucos cruzeiros que se perdiam no fundo do bolso, certo de que teria de escolher entre voltar para a pensão sem algum para retornar no dia seguinte ou dormir por ali mesmo. Qualquer banco serviria, e, no regime de economia daquelas andanças, todo trocado guardado contava. Terminou a noite com um pão com manteiga e um cortado, a única refeição do dia, ainda assim um luxo se medido os últimos dias daquela longa e indesejada estadia fora de casa.
A poucas quadras do batalhão, recostou-se em um banco e repousou a cabeça sobre a velha camisa de flanela, dobrada com certo cuidado para evitar que o irmão desconfiasse das dificuldades quando o visse pela primeira vez depois de tantos meses. Já nem lhe incomodava mais a prisão, qual fosse o motivo, assim como o incômodo da viagem. Só desejava encontrar o Januário, e queria estar bem disposto para abraçá-lo. A despeito do frio que lhe tocava a face e da ansiedade, adormeceu, exaurido pelas noites desconfortáveis que antecederam a certeza de rever o irmão. Descansava, enfim.
Diferente dos outros dias, Alcides não viu a chegada do amanhecer. Com o chapéu sob o rosto, ouviu apenas estampidos abafados seguidos de ruídos que não conseguia identificar. O cansaço ainda lhe prendia, e o sono foi definitivamente interrompido pela agitação que tomava a esquina. Ouvia ecos de pessoas gritando, o som estridente das sirenes e dos carros que freavam bruscamente, tudo misturado ao tilintar das ferraduras da cavalaria. Num impulso levantou-se, atordoado. Sentiu o gosto do sangue e a vista turva. O golpe de coturno havia lhe pegado de cheio. Os tímpanos zuniam aos gritos de “vagabundo”, “vadio”, “imprestável”. Tentava explicar do seu jeito simples que estava ali para rever o irmão, que havia sido detido sem explicação, que era de boa família e que resolveria o mal-entendido, mas eles não o ouviam entre tantos pontapés. Sufocado pelo sangue que lhe tomava a garganta e rendido entre pontapés e socos, tentou socorrer-se dos documentos que trazia no bolso da calça. O gesto impensado provocou a reação irrefletida de um aspirante trêmulo e hesitante que disparou diversas vezes, e os documentos escorreram pela mão de Alcides com o sangue que vertia quente sob o chão frio das primeiras horas da manhã.
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